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No Brasil, medidores de luz transformam vidas e iluminam negócios

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Antigos medidores de energia descartados e prontos para serem enviados às empresas de reciclagem

O que um medidor de consumo de energia tem em comum com um celular? Resposta: além de estar presente nas casas de milhões de brasileiros, torna-se lixo eletrônico a partir do momento em que é descartado. Não contém metais pesados, mas ainda assim seus materiais podem causar riscos a partir do momento em que são jogados em lixões ou aterros sanitários.
 
O interessante é que os componentes de um medidor – plástico, ferro, cobre, vidro e alumínio – são inteiramente reaproveitáveis e ainda podem gerar empregos e renda. Foi o que descobrimos ao trabalhar com a Eletrobras em um projeto para modernizar a rede e combater o roubo de energia em seis estados brasileiros: Acre, Alagoas, Amazonas, Piauí, Roraima e Rondônia.
 
Uma das atividades do projeto Energia Mais consistia em substituir os medidores obsoletos das casas e comércios desses estados. Entretanto, surgiu a questão: o que vamos fazer? Cerca de 10% do lixo eletrônico do mundo veio da América Latina em 2014, e o Brasil saiu na frente, com 1,400 quilotoneladas jogadas fora no mesmo ano, segundo estudo da GSMA.
 
Em meio a tal cenário, a hipótese de vê-los simplesmente descartados em um lixão preocupava a toda a equipe, em especial a de salvaguardas ambientais e sociais, que busca minimizar o impacto das iniciativas do Banco. Assim começou um trabalho que tirou os medidores de sua condição de invisibilidade – afinal, estão bem escondidos nas casas –, tornando-os objetos capazes de transformar vidas e negócios.
 
Não estamos exagerando. A mudança começou dentro da própria Eletrobras e de suas subsidiárias, que ajustaram suas áreas jurídicas e de almoxarifado, entre outras, para armazenar os medidores e se desfazer adequadamente deles.
 
O próximo passou foi organizar leilões, cujo sucesso foi surpreendente, pois os lotes de medidores estavam em estados brasileiros distantes e ainda assim despertaram o interesse das empresas de reciclagem. As compradoras assumiram o compromisso de destruir os equipamentos obsoletos para que eles não fossem reaproveitados na própria rede de distribuição, agravando os problemas da medição incorreta e do roubo de energia.
 
A venda desses equipamentos, bem como de cabos, transformadores, etc., gerou R$ 5,4 milhões para as companhias de distribuição de energia e a ideia é que esse valor seja repassado a projetos sociais apoiados por elas.
 
Na outra ponta desse processo, estão as empresas de reciclagem. Vimos muitas delas crescerem, capacitarem-se para participar dos leilões e trabalhar corretamente com a logística reversa dos equipamentos.


 
Recentemente, visitamos uma dessas empresas: a Trafominas (foto acima), em Guaxupé (Minas Gerais), fundada por Geovani Marques, que começou como catador de metais e vivia fazendo pequenos negócios entre o sul do estado e o norte de São Paulo. Para conseguir participar do leilão, fazer o processamento e a reciclagem dos medidores, ele precisou investir e melhorar seu pequeno negócio, mas valeu a pena.
 
A Trafominas é gerenciada por Geovani e membros da família. Eles trabalham ali e geram emprego para outras pessoas da pequena cidade. Dali, saem ferro, cobre, vidro, alumínio e plástico separados e certificados, para os compradores – empresas que vão utilizar esses materiais em outros produtos – saberem que nenhum dos materiais foi roubado.
 
Estar com Geovani e com a equipe do projeto e ver a empolgação de todos nos deu a certeza de que o Energia Mais gerou e pode continuar gerando impactos muito interessantes. De ponta a ponta, o processo teve tudo a ver com o que nós queremos, como o conceito de sustentabilidade e o esforço para não perder ou desperdiçar coisa alguma. De uma pequena atividade do projeto, surgiu um trabalho que pode ser repetido em todo o país e na América Latina, ajudando a enfrentar a cada vez mais séria questão do lixo eletrônico.
 

Comments

Submitted by Edvaldo on

É uma ideia genial, visto que estes aparelhos eletrônicos apenas ocupam locais nos lixões ou em alguns casos são jogados em rios, e até mesmo descartados em matas, florestas.

Isto apenas aumentaria a poluição. Gostei muito de ver esta iniciativa. Isso fará com que outras pessoas se integrem a causas mais nobres como estas.

Farei um artigo em meu site http://forumdodinheiro.com.br a respeito. para que meu sote não seja 100% focado em negócios, mostrando que uma ação social para o meio ambiente é válida em qualquer seara.

Parabéns mesmo pela atitude.

Submitted by Triunfo Imóveis on

caramba, artigo muito chamativo. estou perplexo!!