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Ajudar as vendedoras de mercado em Moçambique a desbloquearem o seu potencial de vendas

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Foto: Daniel Jack/World Bank

Estão 40 graus centígrados e a nossa pele está pegajosa. O barulho é enorme, com pessoas em movimento constante, taxistas a gritarem direcções, preços ditos aos gritos e vendedores a chamarem clientes. O sol está a nascer, mas dentro do mercado está totalmente escuro. Peças de tecido e grandes sacos de plástico protegem as bancas, a comida e as pessoas do calor do dia que começa a aumentar. O local parece uma colmeia com tanta actividade.

Estamos em Fajardo, um mercado de Maputo, Moçambique, perfeitamente situado entre o centro da cidade e um dos seus maiores bairros de caniço, Chamanculo. Numa sala, onde a pintura que ainda resta é agora um mosaico com várias tonalidades de bege, estão 40 mulheres. Algumas falam Changana, um dialecto local. Outras lêem as grandes folhas de papel coladas nas paredes, mergulhadas nos seus pensamentos. Todas vendem produtos, sentadas no chão em redor do mercado. Os seus produtos são os mais baratos, muitas vezes com as menores margens de lucro.
 
É o momento para outra sessão da MUVA+, uma intervenção concebida para melhorar a vida e os negócios das vendedoras mais pobres que vendem produtos nos mercados urbanos. Durante uma formação com a duração de 9 semanas seguida de 8 semanas de mentoria individualizada, combinamos a formação em competências em negócios, gestão e auto-eficácia. O projecto é uma iniciativa da MUVA, um programa que concebe, implementa, testa e avalia, abordagens inovadoras para a capacitação económica das mulheres em áreas urbanas.
 
Dar formação a mulheres empreendedoras de subsistência com o objectivo de aumentar os seus rendimentos não é uma novidade, mas a MUVA fá-lo de maneira um pouco diferente. Concentramo-nos em promover as aspirações individuais valorizando a sua própria experiência e liberando o seu potencial, em vez de nos concentrarmos directamente nos seus negócios, e ensinando as competências financeiras que não têm. Trabalhamos também em relação às barreiras das normas sociais que impedem os sonhos de realização pessoal.
 
Um componente crucial da abordagem da MUVA é colocar as restrições dos participantes no centro do processo ao desenvolver soluções que têm em consideração as normas e barreiras sociais tanto visíveis como invisíveis que enfrentam. Para nós, o género não é apenas trabalhar com mulheres. Para desbloquear barreiras que diminuem o potencial das mulheres para prosperar economicamente, combinamos a aprendizagem de competências complexas, como competências empresariais e contabilidade básica, com o acesso a oportunidades, como abrir uma conta bancária ou facilitar o acesso a opções alternativas de inclusão financeira e competências transferíveis.
 
Trabalhamos com base nos resultados de um estudo randomizado controlado de uma formação destinada a melhorar a iniciativa pessoal dos participantes. O estudo, levado a cabo pelo Gender Innovation Lab (GIL) do Banco Mundial) e pelas equipas de Finanças, Competitividade e Inovação desafiou a abordagem de “negócios como sempre” mostrando que o melhoramento das competências de iniciativa pessoal nos negócios, como um espírito voltado para a proactividade e para o futuro, permite aumentar os lucros mais do que a aquisição de competências empresariais básicas. As mulheres que participaram na formação piloto de iniciativa pessoal no Togo viram os seus lucros aumentarem em 40%, enquanto que aquelas que participaram na formação tradicional em negócios não tiveram um aumento na média dos seus lucros. O projecto combina essa evidência com o compromisso de colocar a experiência dos participantes no centro do processo de aprendizagem. Reconhecemos explicitamente que aquelas que têm "mais em jogo" são mais capazes de definir o problema que estão a enfrentar e também têm mais capacidade de encontrar soluções aplicáveis às suas situações. Quando realmente “nos calamos e ouvimos” ficamos impressionados com a resiliência e a capacidade das mulheres para ultrapassarem as barreiras. E continuamos a ouvir. Ouvimos todos os dias.
 
Um dos desafios que enfrentamos como implementadores é a necessidade de redefinir o nosso papel como "especialistas"; abandonar a ideia da primazia do nosso conhecimento empresarial exigiu uma profunda alteração nas técnicas e atitudes de facilitação. Na MUVA+, levamos muito a sério a premissa de que as especialistas em empreendedorismo informal e de subsistência nos mercados urbanos são as mulheres que já gerem os seus meios de subsistência há vários anos. Como é que traduzimos isso em acção? Damos-lhes apoio para que possam encontrar as suas próprias soluções, fornecendo ferramentas que são utilizadas em pensar a concepção e Adaptação Interactiva Orientada para Problemas (PDIA), uma metodologia que se baseia nos princípios fundamentais de "soluções locais para problemas locais" e "tentar, aprender, iterar e adaptar".
 
Para o conseguirmos não utilizamos professores, mas temos facilitadores que proporcionam às nossas participantes um local onde o seu espírito empresarial é reconhecido, valorizado e complementado. A nossa responsabilidade é utilizar a nossa perícia e capital social para orientar as participantes através do seu plano de vida - que inclui o crescimento dos seus negócios e a facilitação de acesso através de portas que elas não poderiam abrir sozinhas. 
 
Após uma intervenção de quatro meses, uma das nossas participantes contou-nos que nunca tinha pensado nela como tendo um trabalho que valesse alguma coisa. Agora paga a si própria um salário mensal e chama-se a si própria empresária. Quando a MUVA+ começou, apenas 13% das participantes confirmaram que nos 3 meses anteriores tinham feito qualquer coisa para aumentarem as suas vendas. No fim do projecto, 76% já o tinham feito.
 
Serão implementados este ano mais dois ciclos, e estarão disponíveis em breve mais resultados referentes às alterações nos lucros e capacitação pessoal. Mantenham-se à escuta.

A MUVA é uma incubadora social que concebe e testa abordagens inovadoras para a Capacitação Económica das Mulheres. O programa trabalha em muitas áreas, incluindo competências sociais e TVET, desenvolvimento de competências não cognitivas em escolas secundárias para facilitar a transição dos estudantes para o mercado do trabalho e concentra-se na redução das barreiras impostas pelas normas sociais que impedem a participação das mulheres na economia do país. A MUVA é o maior programa da DFID para a Capacitação Económica das Mulheres em Moçambique e começou este ano a implementar algumas das suas abordagens de sucesso noutros países da África Subsaariana.

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