É possível aliar produção agrícola e conservação ambiental? Experiência no Cerrado mostra que sim

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Ao nos aproximarmos da fazenda Santa Eliza de Goiás, em Pirenópolis, cidade a 150 quilômetros de Brasília, avistamos ao longe um topo de morro de vegetação verde e robusta. O cenário destoava das terras destinadas à agropecuária no Cerrado brasileiro, onde 80% das pastagens estão degradadas ou em degradação. Ela pertence ao pecuarista de corte Álvaro Dantas Maia, beneficiário do projeto ABC Cerrado, que une o Banco Mundial e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). Em dois anos, o pecuarista aliou o aumento da produção à restauração e conservação do meio ambiente na propriedade utilizando tecnologias e práticas agrícolas de baixa emissão de carbono. Hoje, a Santa Eliza de Goiás é exemplo de sinergia entre agropecuária e sustentabilidade, além de despertar a inveja dos produtores vizinhos.

Durante nossa visita, vimos os espaços onde Álvaro aplicou as técnicas de correção de solo, a interação lavoura-pecuária-floresta e de palhagem, usada para manter a fertilidade da terra. Todo o suporte e a assistência ao produtor foram dados pelo Senar. “Eu sou um cara curioso e o que eu aprendo gosto de colocar em prática. O conhecimento que consegui com o projeto é uma semente que fica plantada, um embrião que vai crescendo”, disse-nos orgulhoso.

Os motivos para ele se orgulhar são muitos. O produtor recuperou 70% da pastagem, aumentou em 25% a taxa de lotação (número de animais por área ocupada), conservou as microbacias da propriedade e ainda ficou conhecido como “produtor de águas”. Para nosso grupo de 40 profissionais das áreas ambientais, de biodiversidade e florestas, o ABC Cerrado mostrou ser possível fortalecer as boas práticas de conservação e restauração e de agricultura de baixa emissão de carbono no Cerrado brasileiro. As lições aprendidas serão muito úteis para o recém-lançado projeto Paisagens Rurais.

O produtor rural Álvaro Dantas, beneficiário do ABC Cerrado. Foto: Senar/Divulgação.

 

Sob o Programa de Investimento Florestal (PIF), o novo projeto vai promover o uso sustentável da terra e o melhoramento do manejo florestal no Cerrado. Serão adotadas práticas de conservação, restauração ambiental e tecnologias agrícolas de baixa emissão de CO2 em 53 bacias hidrográficas selecionadas, sendo 10 prioritárias. Ao fortalecer a produção agrícola e a conservação ambiental, o Paisagens Rurais estará melhorando a qualidade de vida no meio rural.

A abordagem escolhida para o projeto é a de gestão integrada da paisagem. Nela, coloca-se a agricultura como elemento unificador, abordando o desenvolvimento rural, agricultura familiar, meio ambiente, água e gestão de risco, de modo a ampliar os impactos positivos das ações. O Banco Mundial apoia iniciativas com esse tipo de abordagem em vários países no intuito de combater a pobreza extrema e compartilhar a prosperidade de maneira sustentável.

A escolha do Cerrado deve-se ao valor ambiental e estratégico do bioma. Além de representar uma das savanas mais biodiversas do mundo, o Cerrado possui estoques de carbono significativos e concentra as nascentes das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul: Amazônica/Tocantins, São Francisco e Prata.

Área total do Cerrado. Fonte: INPE.

No Cerrado, a agricultura ocupa um pouco mais de 10% da área total de 200 milhões de hectares coberta pelo bioma. Na região, são criadas 50 milhões de cabeças de gado, ou seja, 33% do rebanho nacional. Por isso, tornou-se tão importante a agricultura e a pecuária serem realizadas de forma sustentável. É nesse contexto que o Paisagens Rurais atuará. Para isso, se apoiará em três frentes de ação: assistência técnica, baixa emissão de carbono e integração.

Dados de desmatamento do Cerrado, 2001-2018. Fonte: INPE.

Assistência

O projeto levará assistência técnica a 4 mil propriedades rurais da região por meio do Senar. Técnicos da instituição passarão aos produtores rurais conhecimento sobre melhorias dos sistemas de uso da terra e manejo dos recursos naturais, aumentando as oportunidades de emprego e renda para proprietários de terras e interessados nas cadeias de valor geradas pelas atividades agrícolas.

CO2

A produção agrícola é responsável por 20% das emissões de gases de efeito estufa no mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A pecuária é o segmento que mais emite gases de efeito estufa, mas estima-se que seja possível reduzir de 20% a 30% dessas emissões utilizando técnicas de criação de gado aprimoradas e de fácil implementação.

No caso brasileiro, a redução do impacto ambiental deve-se primordialmente a políticas como o Plano ABC e a aplicação do Código Florestal Brasileiro. Maior programa de Agricultura de Baixo Carbono do mundo, o ABC apoia ações para ampliar o uso de tecnologias agropecuárias sustentáveis com alto potencial de mitigação das emissões de gases de efeito estufa e combate ao aquecimento global. As medidas incluem agricultura de plantio direto, restauração de pastagens degradadas, plantio de florestas comerciais, fixação biológica de nitrogênio, tratamento de dejetos animais e integração de lavoura-gado-floresta.

Já o Código Florestal Brasileiro exige um percentual mínimo de vegetação nativa nas terras particulares, a reserva legal, e de Áreas de Preservação Permanente (APP). Os proprietários também precisam manter matas ciliares ao longo de cursos d'água, encostas íngremes e montanhas. Com as terras registradas no Cadastro Ambiental Rural – CAR, é possível saber o total da área das fazendas e o percentual destinado a cada uso previsto na lei. Um dos objetivos do projeto Paisagens Rurais é justamente garantir que as propriedades assistidas estejam em conformidade com as regras da legislação ambiental.

Integração

As boas práticas e lições aprendidas de projetos do Programa de Investimento Florestal (PIF), como o ABC Cerrado e o CAR, serviram de base para a construção do Paisagens Rurais. Possibilitam melhores condições de implementação do CAR; da restauração e proteção de habitats críticos em propriedades privadas; da gestão agrícola sustentável, incluindo a restauração de pastagens degradadas e a implementação de um sistema integrado de cultivo-pecuária-floresta; e do planejamento do uso da terra.

Nessa aliança para conservar o Cerrado brasileiro, o projeto reforça a aproximação das instituções locais e nacionais de maneira inovadora. Na minha experiência como coordenadora de projetos sob o PIF, posso afirmar que essa sinergia construída é um diferencial e, até mesmo, crucial para fortalecer a adoção das práticas sustentáveis. Em nível nacional, mantém-se a colaboração interssetorial entre o Serviço Florestal Brasileiro, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária e o Senar.

Estamos confiantes que essa colaboração e integração de todos os envolvidos gerarão frutos como os que vimos na fazenda Santa Eliza de Goiás, onde a produção se transforma para coabitar respeitosamente com o meio ambiente, em um ciclo onde ganham os produtores rurais e o Cerrado.

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