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Em Moçambique, Banco Mundial reabilita infraestrutura vital, assegurando irrigação e transporte

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Agricultores colhem tomate, colocado em caixas para venda em mercados. Foto Gustavo Mahoque / Banco Mundial


A primeira vez que visitei o distrito de Chókwe na província de Gaza, a cerca de 230 km da capital Maputo, estórias sobre potencialidades agrícolas da região vieram-me à mente. Durante anos a narrativa oficial rotulou Chókwe como o 'O Celeiro da Nação' - Bem, pelo menos para a região sul do país, pensei alto algo céptico enquanto conduzia. Isto foi antes de eu avistar o imponente e, sem dúvidas, o maior sistema de irrigação por gravidade jamais construído no país, cobrindo 37.000 hectares de terra fértil à jusante do majestoso Rio Limpopo. Uma vez no local pude testemunhar a azafama da colheita do tomate e outros vegetais, e sentir o entusiasmo nos agricultores, comerciantes e residentes daquele vale. 

O sistema reabilitado de irrigação faz parte de uma infraestrutura multifuncional compreendendo uma linha férrea, uma rodovia no topo e uma barragem, tudo numa so infraestrurura, e conhecido por Barragem de Macarretane. As operações da infrastructura foram severamente afectadas por falhas acumuladas nos últimos 12 anos, causadas principalmente por sucessivas e devastadoras inundações com destaque para as dos anos 2000 e 2013, que resultaram na perda de 113 vidas e mais de 170 mil pessoas deslocadas, bem como a destruição de inúmeras infraestruturas, incluindo escolas, hospitais e propriedades privadas, tornando este episódio num dos piores desastres naturais a atingir Moçambique nos últimos tempos.
 
A região sofre igualmente de secas cíclicas intensas, a última das quais nos anos 2015 e 2016 provocadas por uma das mais fortes ocorrências do fenómeno El Niño jamais registrados. No sul e em algumas partes de Moçambique, o fenômeno destruiu colheitas e dizimou gado, deixando comunidades inteiras literalmente na fome e tendo que recorrer à raízes de plantas para sobreviver.
 
Os investimentos do Banco Mundial na ordem de US $ 32 milhões foram usados para efectuar reparações de emergência na barragem, reconstruindo os diques, barreiras de protecção e reparar o seu sistema hidromecânico que controla o fluxo de água para o vale à jusante.
 
Edgar Chongo, Director da Bacia do Limpopo e responsável pela gestão da Barragem, explicou que as sucessivas inundações provocaram a erosão das margens do rio, que por sua vez, afetaram os blocos de betão à jusante o que ameaçava a estabilidade das fundações da barragem, e que poderia levar ao colapso da infraestrutura. Era urgente uma intervenção desta natureza, anotou. O risco da inação poderia resultar no colapso da infraestrutura ao longo do tempo, e com ela, a destruição de toda uma cadeia de produção e meios de subsistência estabelecidos neste vale há mais de 60 anos.
 

A infra-estrutura polivalente construída em 1955 foi submetida a obras de reabilitação com o financiamento do Banco Mundial para assegurar a irrigação a baixo custo e o transporte em todas as estações. Foto Gustavo Mahoque / Banco Mundial


Sem contar com uma possível interrupção do trafico rodoviário e ferroviário: as duas vias no topo da infraestrutura são de importância vital no corredor de transportes do Limpopo o qual dá acesso ao porto de Maputo aos países do interland, incluindo o Zimbabwe, Botswana e Zâmbia.
 
Elisa Moiane, uma viúva de 41 anos, que trocou o seu emprego como ativista numa ONG internacional para abraçar a agricultura no regadio contou-me como a reparação da barragem teve impacto na sua vida. Chókwe é para nós sinônimo de produção, disse. Chókwe é tomate e legumes e, tomate é vida, e isso, significa estabilidade financeira para minha família- disse ela enquanto coordenava o carregamento de caixas de tomate da sua produção para posterior venda em mercados mais distantes.
 
Graças a este investimento, 37.000 hectares de terras aráveis estão agora a ser irrigadas à jusante, ajudando assim a restaurar a narrativa sobre Chókwe, como produtor de alimentos básicos no país. A intervenção permitiu ainda que pelo menos 50 mil pessoas entre agricultores e comerciantes retomassem em pleno a sua actividade, o que de acordo com relatórios oficiais contribuiu para a estabilidade dos preços do arroz e de hortícolas na região sul do país.
 
Fiquei igualmente a saber que embora todos saibam as virtudes da barragem para a irrigação, a sua contribuição para a gestão de inundações é mínima devido a paisagem bastante plana à montante.
 
No entanto, a sua importância no maneio da seca é significativa. Ao assegurar a rega em todas as estações por gravidade e a baixo custo para todo o vale, esta barragem desempenha um papel crucial na produção de alimentos durante todo o ano, melhorando a segurança alimentar e nutricional das comunidades. Além disso, a barragem funciona em conjunto com uma outra barragem situada à montante, a barragem de Massingir, a qual acumula a água do rio Limpopo para fornecer a região agrícola de Chókwe.


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