Financiando o futuro resiliente do Brasil: como preparar os orçamentos públicos para uma nova era de desastres climáticos

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Financiando o futuro resiliente do Brasil: como preparar os orçamentos públicos para uma nova era de desastres climáticos Trabalho de reconstrução da infraestrutura de Porto Alegre depois das enchentes de 2024. Foto: Luciano Lanes/PMPA

No início de maio de 2024, as ruas de Porto Alegre viraram verdadeiros rios, com ônibus boiando, pontes desabando e bairros inteiros engolidos pelas águas. Por semanas, o país viu o Rio Grande do Sul enfrentar a enchente mais devastadora do passado recente, que custou quase US$ 17,8 bilhões ao país, ou 0,76% do PIB brasileiro.

O governo federal mobilizou mais de US$ 9,6 bilhões para apoiar as ações de recuperação, e os governos estaduais e locais cobriram a diferença com doações privadas. Esse apoio foi indispensável, mas também revelou que o Brasil está combatendo desastres do século 21 com ferramentas financeiras do século 20.

Clima em mudança, orçamento despreparado

O Brasil enfrenta milhares de desastres naturais todos os anos, que resultam em extensos danos a residências, empresas e infraestrutura. Esses eventos são dispendiosos: as inundações resultam, por si só, em perdas anuais da ordem de US$ 5,36 bilhões — aproximadamente 0,24% do PIB — e obrigam os governos de estados e municípios a realocar recursos destinados a escolas, estradas e programas sociais para cobrir os reparos emergenciais.

As mudanças climáticas têm agravado essa situação. Os prejuízos causados por inundações no Brasil podem aumentar em mais de 50%, pois as chuvas intensas têm se tornado mais frequentes em áreas urbanas densamente povoadas. Os desastres raros de outrora passaram a ser o novo normal. 

Além disso, o Brasil já registra um déficit anual de financiamento de infraestrutura de cerca de US$ 50 bilhões. A adaptação da infraestrutura exige uma mobilização substancial de capital adicional (e um foco claro nas normas de resiliência) para garantir que a nova infraestrutura seja capaz de resistir aos riscos em constante evolução, de forma a evitar custos ainda mais altos e crescentes.

O custo da reação tardia

O Brasil dispõe de instituições robustas para a gestão de desastres, mas o financiamento permanece reativo, dependendo de créditos e transferências emergenciais. Quando ocorre um desastre, os governos recorrem a créditos extraordinários, transferências fiscais e realocações orçamentárias. 

Image Enchentes de 2024 em Porto Alegre. Foto: Rafael Neddermeyer/Agência Brasil

 

As administrações estaduais e municipais — as mais próximas das comunidades afetadas — muitas vezes não têm acesso rápido a recursos financeiros, o que atrasa os reparos urgentes e resulta numa reconstrução desigual nas diferentes regiões. Isso retarda a recuperação, gera imprevisibilidade no planejamento local e desperdiça a oportunidade de uma reconstrução melhor. A falta de uma cultura de seguros no setor público significa que o governo federal arca com a maior parte dos custos não cobertos localmente. 

Um futuro diferente: planejar antes que os desastres aconteçam

Outros países que enfrentam desafios semelhantes aos do Brasil adotaram abordagens de financiamento de riscos de desastres (FRD) que tornam o financiamento mais rápido, mais previsível e mais econômico. A abordagem de FRD baseia-se numa ideia simples: garantir a disponibilidade de recursos financeiros antes que os desastres aconteçam, e não depois, e assegurar-se de que esses recursos possam chegar rapidamente a quem precisa.

Uma estratégia de FRD bem projetada utiliza diversos instrumentos em vários níveis, a saber: reservas e contingências orçamentárias para choques frequentes e de menor magnitude; linhas de crédito contingenciais para eventos de intensidade moderada que exigem liquidez rápida e em grande escala; e seguros ou títulos de catástrofes para desastres raros, mas de alto impacto.

Por exemplo, o Plano Nacional de Gestão de Riscos de Desastres do Peru demonstra como a obrigatoriedade de seguros para ativos públicos, complementada por uma cobertura paramétrica e títulos de catástrofes, reduziu as incertezas fiscais e acelerou os processos de recuperação após desastres. 

Há décadas, o México demonstra que estratégias baseadas em dados ajudam a estabelecer acordos transparentes de compartilhamento de custos entre os níveis estadual e federal, além de alavancar os mercados de capital e de resseguros para proteger os orçamentos emergenciais anuais dos piores cenários.

As estratégias mais eficazes também consideram como esses instrumentos criam incentivos para a redução de riscos (por exemplo, recompensando ações de resiliência por meio de reduções nos prêmios de seguros) e como distribuem recursos rapidamente por meio de redes de proteção social.

Três ideias para fortalecer a resiliência do Brasil

  • Uma estratégia nacional de FRD que passe da reação à preparação. O Brasil deve desenvolver uma estratégia nacional de FRD que defina como os diferentes níveis de governo arcarão com os custos das perdas causadas por desastres e reduzirão os riscos. Isso envolve a acumulação de reservas para eventos frequentes e mitigação de riscos, a obtenção de linhas de crédito que possam ser desembolsadas rapidamente e a utilização de seguros ou títulos de catástrofes para desastres raros e de grande impacto. Essas ferramentas devem fazer parte do processo orçamentário regular, em vez de serem consideradas exceções emergenciais.
  • Expansão do mercado de seguros privados para reduzir o ônus público. Com uma regulamentação melhor, normas mais claras, capacitação do setor público e acesso a dados sobre riscos, a cobertura de seguros pode aumentar. Os programas federais podem ajudar exigindo um seguro mínimo contra desastres para moradias e infraestrutura. Para as famílias de renda baixa, microsseguros vinculados a sistemas de alerta precoce podem proporcionar alívio rápido sem gerar passivos financeiros contínuos.
  • Disponibilização dos instrumentos de financiamento necessários a estados e municípios. Os desastres acontecem em nível local; logo, estados e municípios precisam de opções de financiamento além das transferências federais. Duas inovações podem ajudar: um fundo de riscos voluntário para que os estados compartilhem riscos e contratem resseguros a taxas melhores; e linhas de crédito contingenciais padronizadas por meio de bancos de desenvolvimento que desembolsem recursos rapidamente e recompensem investimentos em resiliência. Esses mecanismos garantem que todas as regiões — e não apenas as mais ricas — possam se preparar e se recuperar mais rapidamente.

Do choque à estratégia: um apelo à ação agora

Construir uma estratégia de financiamento de riscos de desastres não é um projeto de um ano, mas o Brasil pode começar ainda hoje. Criar um comitê de FRD, definir metas de reservas financeiras e criar um ambiente favorável para créditos contingenciais e transferências de riscos são os primeiros passos práticos rumo a esse objetivo. A integração dessas medidas ao orçamento do próximo ano fará com que o financiamento de desastres deixe de ser tratado como exceção emergencial e se torne um sistema previsível. Iniciativas-piloto — como seguros paramétricos federais ou padrões mínimos de cobertura em programas de infraestrutura vinculados a ações de resiliência — podem gerar o impulso necessário.

As recentes inundações são um lembrete doloroso da vulnerabilidade do Brasil num mundo em aquecimento. Passar da improvisação para o planejamento protegerá as finanças públicas, acelerará a recuperação e fortalecerá a resiliência de milhões de brasileiros que vivem na linha de frente das mudanças climáticas. Um sistema de financiamento de desastres mais seguro, previsível e equitativo não é apenas uma questão de prudência fiscal: é um investimento crucial no futuro do Brasil.

 

CONTEÚDO RELACIONADO

Brazil - Strengthening Fiscal Resilience to Climate Disasters through Disaster Risk Finance (English)


Faruk Miguel Liriano

Especialista Sênior no Setor Financeiro

Jack Campbell

Especialista líder em Gestão de Riscos de Desastres no Grupo Banco Mundial (América Latina e Caribe)

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