Mais e melhores empregos podem salvar as florestas do Brasil? O mito grego de Erisícton talvez nos ajude a responder

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Mais e melhores empregos podem salvar as florestas do Brasil? O mito grego de Erisícton talvez nos ajude a responder No Brasil, investimentos em produtividade urbana não apenas criam empregos, mas também podem reduzir o desmatamento. Foto de Mariana Ceratti/Grupo Banco Mundial

Na mitologia grega, Erisícton, o rei da Tessália, derrubou um bosque sagrado da deusa Deméter. Como punição, foi amaldiçoado com uma fome insaciável. Ele consumiu tudo o que o sustentava até que nada restasse, nem mesmo ele próprio.

Em um artigo recente, eu e o professor Joaquim Bento de Souza Ferreira Filho usamos essa história para apresentar o conceito da "Maldição de Erisícton": uma armadilha de desenvolvimento na qual as economias enfrentam dificuldades para criar empregos em maior quantidade e qualidade, ao mesmo tempo em que perdem capital natural.

Vale lembrar que o mundo precisa de cerca de 800 milhões de empregos adicionais na próxima década, especialmente para os jovens, ao mesmo tempo em que se aproxima de pontos de inflexão ambientais que ameaçam os sistemas naturais dos quais nossa prosperidade depende.

E se esses dois desafios estiverem conectados?

A Maldição de Erisícton sugere que estão. Modelos de crescimento que falham na missão de gerar mais e melhores empregos também podem exercer uma pressão crescente sobre o capital natural. Por outro lado, a cura para a maldição não é menos crescimento, mas um padrão de crescimento diferente: um que crie mais e melhores empregos enquanto preserva um planeta habitável.

Exploramos essa ideia por meio do caso do Brasil.

O Brasil é uma das grandes histórias de sucesso agrícola do mundo. No entanto, sua pauta de exportação permanece dominada por commodities, refletindo um crescimento de produtividade relativamente fraco na indústria de transformação e nos serviços modernos. Ao mesmo tempo, muitos brasileiros continuam trabalhando em empregos informais e de baixa produtividade, apesar de quase 90% da população já viver em áreas urbanas.

O Brasil também abriga 60% da Floresta Amazônica, um dos ecossistemas mais importantes do mundo e um potencial ponto de inflexão global.

Houve avanços. O desmatamento da Amazônia caiu substancialmente nos últimos anos. Ainda assim, cerca de 5.100 km² de floresta tropical foram perdidos em 2025, um número ainda muito elevado.

A Amazônia em pé gera serviços ecossistêmicos avaliados em cerca de US$ 317 bilhões por ano. Ela regula o regime de chuvas em toda a América del Sul, armazena vastas quantidades de carbono e abriga uma biodiversidade incomparável. A perda desses serviços teria consequências muito além do Brasil, afetando a estabilidade climática, a segurança alimentar e a biodiversidade que beneficiam a todos nós. Como, então, os países podem satisfazer seu desejo por padrões de vida mais elevados sem destruir os sistemas naturais dos quais esses padrões, em última análise, dependem?

Nosso estudo mostra que a resposta não é menos crescimento. É uma composição diferente de crescimento.

Tomemos como exemplo a produtividade agrícola.

É sabido que produzir mais alimentos por hectare reduz a pressão para desmatar novas áreas em escala global. No entanto, nossos resultados mostram que a situação é mais complexa. Em regiões de fronteira agrícola, como a Amazônia, uma produtividade mais alta pode aumentar a lucratividade, incentivando os agricultores a expandir a produção para dentro das florestas, um fenômeno conhecido como efeito Jevons.

O equilíbrio é fundamental.

Quando os ganhos de produtividade são distribuídos de forma mais uniforme por toda a agricultura — incluindo regiões agrícolas mais consolidadas, onde há pouca pressão sobre as florestas —, o desmatamento diminui.

Mais surpreendente ainda é o fato de que combinar a produtividade agrícola com uma maior produtividade na indústria de transformação e em outros setores voltados ao comércio reduz ainda mais o desmatamento no Brasil.

É aqui que entram os empregos.

A maioria dos brasileiros não trabalha mais na agricultura. Eles dependem da indústria e dos serviços para obter renda crescente e melhores oportunidades. Nossas simulações mostram que o crescimento da produtividade nesses setores cria mais e melhores empregos, ao mesmo tempo em que reduz os incentivos para expandir a agricultura em direção às florestas.

O resultado é uma situação em que todos saem ganhando.

Romper a Maldição de Erisícton não exige sacrificar o desenvolvimento. Exige um modelo de crescimento que satisfaça o desejo da sociedade por prosperidade por meio da produtividade e da transformação estrutural, em vez de manter a pressão contínua sobre os ecossistemas naturais.

No Brasil, investimentos em produtividade urbana — melhores transportes, infraestrutura digital, eletricidade confiável, qualificação profissional e um ambiente de negócios mais robusto — não apenas criam empregos, mas também reduzem o desmatamento: a Figura 1 mostra a estreita correlação entre a produtividade total dos fatores no Brasil e o desmatamento nos estados brasileiros da Amazônia.

Como o sistema elétrico brasileiro já é majoritariamente renovável, esses investimentos também ajudam a reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Figura 1: Produtividade total dos fatores no Brasil (invertida) e desmatamento nos estados brasileiros da Amazônia

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É aqui que as agendas do Banco Mundial sobre Empregos e um Planeta Habitável se cruzam.

O Brasil é apenas um exemplo.

Será que a Maldição de Erisícton também pode ajudar a explicar o desmatamento, a perda de ecossistemas e os pontos de inflexão ambiental em outras partes do mundo? É uma questão que esperamos explorar em pesquisas futuras.


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