Mais e melhores empregos: como o Nordeste pode impulsionar o novo ciclo de crescimento do Brasil?

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Image Vista aérea do Porto Digital, um polo de inovação tecnológica fundado no Recife em 2000. Foto: Porto Digital/Divulgação.

 

Em Olinda, sentados no Alto da Sé em uma noite quente, em um território tão marcante para a história da região, conversávamos sobre empregos, crescimento e o futuro do Nordeste brasileiro, enquanto saboreávamos uma deliciosa tapioca e cuscuz das barriquinhas concentradas na praça. 

Estávamos viajando pela região fazia alguns dias, compartilhando análises preliminares, e aprendendo com vozes do setor privado, governo e sociedade civil—cada uma trazendo sua perspectiva sobre os desafios e oportunidades da região.

Depois de todas essas conversas, algo ficou claro para nós: o Nordeste brasileiro pulsa juventude, diversidade e oportunidades. Lar de cerca de 54 milhões de pessoas, das quais aproximadamente 80% estão em idade economicamente ativa, e com uma força de trabalho cada vez mais escolarizada, a região possui um grande potencial para impulsionar o crescimento futuro do Brasil.

Mas por que esse bônus demográfico ainda não se tornou uma fonte de crescimento mais robusta?

Cerca de 41% da população ainda vive em situação de pobreza, e a participação na força de trabalho permanece baixa, com apenas 56% da população em idade ativa empregada na última década, em comparação com 65% no Sudeste, região mais próspera do país.

Desta forma, a região precisa de mais e melhores empregos. O Nordeste apresenta um dos níveis mais elevados de talentos subutilizados do país: apenas 14% do capital humano é utilizado de forma eficiente no setor formal, chegando a 32% quando também se considera o setor informal. 

A informalidade é alta, em torno de 52%, em comparação com 34% no restante do Brasil. A participação feminina na força de trabalho é baixa, de 41% em 2022, frente a 52% em outras regiões do país, apesar de as mulheres nordestinas apresentarem níveis de escolaridade iguais ou superiores aos dos homens. Responsabilidades de cuidado, barreiras de acesso a oportunidades e desigualdades estruturais continuam moldando essa diferença.

 

Participação total e feminina na força de trabalho e população em idade ativa no NE do Brasil (percentagem da população total com 14+ anos), 2012-2022 (formal e informal)

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Fonte: Elaboração própria com base em dados da PNAD do IBGE.

 

Como o talento pode se transformar em novas rotas de crescimento?

O relatório Rotas para o Nordeste destaca que a expansão de empregos produtivos é central para acelerar o desenvolvimento regional. Isso requer criar mais e melhores empregos por meio do fortalecimento da competitividade e da produtividade das empresas, especialmente nos setores de manufatura e serviços. Esses setores concentram 86% do emprego e apresentam grandes lacunas de produtividade em relação às regiões mais ricas do Brasil.

Para isso, prioridades-chave incluem simplificar regulações para as empresas, melhorar o acesso ao crédito para firmas inovadoras e investir em infraestrutura, como transporte, logística, saneamento e conectividade digital. O novo Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional, criado no âmbito da histórica reforma tributária do país, oferece aos governos estaduais a oportunidade de fortalecer investimentos públicos e políticas voltadas à geração de empregos produtivos.

No entanto, criar mais e melhores empregos não é suficiente. É igualmente importante alinhar o desenvolvimento da força de trabalho às necessidades de uma economia em transformação. Políticas que ampliem a mobilidade, a empregabilidade e o alinhamento entre habilidades e demandas do mercado podem ajudar a garantir que a educação esteja conectada às oportunidades de um setor privado mais produtivo.

Porto Digital: um exemplo promissor

Algumas iniciativas locais já apontam soluções práticas. O Porto Digital, um polo de inovação tecnológica fundado no Recife em 2000, ilustra como parcerias entre governo, academia e setor privado podem ajudar a reduzir a distância entre educação e emprego produtivo.

Ao combinar formação profissional, bolsas para estudantes de baixa renda, colaboração direta com empresas do polo e revitalização urbana para oferecer infraestrutura adequada às firmas, o distrito atraiu ou deu origem a cerca de 500 empresas de tecnologia e criou mais de 21 mil empregos qualificados. Serviços de creche dentro do distrito também ajudam a reduzir barreiras à participação feminina. Esses programas, por sua vez, contribuem para atrair mais empresas em busca de talentos qualificados.

O futuro do Nordeste é o futuro do Brasil

Criar mais e melhores empregos no Nordeste não é apenas uma prioridade regional, mas uma oportunidade nacional. Reduzir a lacuna de produtividade entre o Nordeste e as regiões mais avançadas do país pode se tornar um poderoso motor de crescimento para todo o Brasil. Um Nordeste mais dinâmico, inovador e produtivo tem o potencial de liderar o próximo ciclo de desenvolvimento do país, contribuindo para uma economia mais equilibrada, resiliente e capaz de gerar prosperidade compartilhada.


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