A situação de rua tem aumentado globalmente, impulsionada por choques socioeconômicos como a pandemia de COVID-19, migrações internas e internacionais, aumento do custo de moradia e desigualdades no mercado de trabalho. Embora sua escala e suas formas de manifestação variem entre países e regiões, a situação de rua tornou-se um desafio comum entre cidades e áreas metropolitanas em todo o mundo, exercendo pressão crescente sobre sistemas públicos já fiscalmente limitados e com múltiplas prioridades de gasto.
Enfrentar a situação de rua exige mais do que soluções temporárias. Ampliar oportunidades para pessoas em situação de rua requer respostas integradas, que sistemas robustos de proteção social estão particularmente bem posicionados para oferecer. Ao articular serviços sociais, moradia e trajetórias de inserção no trabalho, esses sistemas podem apoiar não apenas uma estabilização imediata, mas uma inclusão de longo prazo, que promova autonomia e saídas sustentáveis da situação de rua.
No entanto, tais respostas integradas muitas vezes são frágeis ou inexistentes, tornando difícil a superação duradoura da situação de rua. Para cidades e áreas metropolitanas, o desafio vai além de oferecer abrigo, trata-se de criar caminhos de volta à estabilidade, autonomia e vidas produtivas,que dependem de sistemas de proteção social capazes de conectar todos os serviços necessários, incluindo o acesso ao trabalho. Experiências de Bogotá, na Colômbia, e São Paulo, no Brasil, mostram o que é possível quando esses sistemas funcionam bem.
“Você não nasceu para ser mediano. Você nasceu para ser forte, você nasceu para criar”, diz Jonathan, um homem de 35 anos em Bogotá.
Jonathan compartilhou essas palavras pouco depois de concluir o ensino médio com a maior nota já registrada em seu programa de educação flexível.
Jonathan durante sua formatura do ensino médio.
Enquanto vivia em situação de rua, Jonathan enfrentou barreiras profundas para exercer seus direitos básicos. Seu maior desafio não era apenas encontrar um lugar seguro para dormir, mas reconectar-se com oportunidades de aprender, trabalhar e recuperar sua independência econômica.
Por meio de uma busca ativa da Secretaría Distrital de Integración Social (SDIS), Jonathan foi encaminhado a um centro de acolhimento que oferecia moradia temporária, alimentação, higiene e apoio à saúde e psicossocial — primeiros passos essenciais rumo à estabilidade. Com apoio contínuo da SDIS, Jonathan concluiu o ensino médio por meio de um programa de educação flexível. Hoje, busca ingressar no ensino superior como caminho para melhores oportunidades de trabalho.
A história de Elaine, em São Paulo, destaca como um apoio oportuno e coordenado — especialmente quando oportunidades de emprego fazem parte da resposta — pode evitar que a situação de rua aconteça. Ao chegar à cidade, Elaine procurou apoio no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS). Em uma semana, foi encaminhada para um apartamento mobiliado na Vila Reencontro, por meio da atuação da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS).
Lá, Elaine recebeu refeições diárias e incentivo para retomar os estudos. Com a estabilidade proporcionada por esse apoio, Elaine conseguiu dois empregos e começou a adquirir móveis para a casa onde pretende morar de forma independente.
Essas duas histórias apontam para uma lição comum: a moradia, por si só, não é suficiente para garantir uma saída sustentável da situação de rua. Pessoas nessa condição também precisam de acesso a benefícios e serviços complementares — como documentação, educação e oportunidades de trabalho — para reconstruir suas vidas e alcançar uma inclusão social duradoura.
Desde 2024, o Banco Mundial vem trabalhando com cidades como São Paulo e Bogotá, além de instituições de pesquisa no Brasil, para compreender melhor como políticas sociais podem ajudar pessoas em situação de rua a se reconectarem com serviços sociais e oportunidades de emprego. Esse trabalho destaca uma mensagem central: sistemas robustos de proteção social podem viabilizar as conexões essenciais entre serviços e instituições de que essas pessoas precisam.
Como parte do esforço, o Banco Mundial também documentou experiências internacionais (veja documento aqui) para apoiar cidades no fortalecimento de suas políticas e ecossistemas de serviços, e espera continuar apoiando outras cidades interessadas em fortalecer os vínculos entre proteção social e estratégias de prevenção e enfrentamento da situação de rua.
Diversas lições adicionais emergem das experiências de Jonathan e Elaine, bem como da revisão de práticas globais:
Agir cedo para prevenir a situação de rua
A história de Elaine mostra que o apoio oportuno pode evitar a situação de rua antes que ela se concretize. A intervenção precoce é frequentemente mais eficaz — e menos custosa — do que agir após a perda da moradia.
Conectar pessoas ao suporte adequado por meio de uma gestão de casos coordenada
O progresso de Jonathan dependeu de sua conexão simultânea com educação, moradia e serviços sociais. A gestão de casos personalizada ajuda a garantir que as pessoas recebam o suporte certo no momento certo, reduzindo a fragmentação e melhorando os resultados.
Investir em capacitação e trajetórias de emprego
O acesso à educação, à qualificação profissional e a oportunidades de trabalho é essencial para saídas duradouras da situação de rua. Políticas que apoiam a preparação para o mundo do trabalho, a formação profissional e a conexão com empregadores ajudam indivíduos a reconstruir competências e a recuperar a independência econômica.
Vincular soluções de moradia a oportunidades de emprego
A moradia estável permitiu que Jonathan e Elaine se concentrassem na educação e no trabalho. Ao oferecer segurança e tranquilidade, a moradia permite que as pessoas invistam energia na geração de renda, condição essencial para saídas sustentáveis.
Construir políticas com base em sistemas de dados robustos
Como o CRAS dispunha de boas informações sobre Elaine e sua família, foi possível conectá-la rapidamente a serviços adequados às suas necessidades. Sistemas de dados confiáveis e cadastros sociais ajudam as cidades a entender a demanda, coordenar respostas e identificar barreiras de acesso.
Fortalecer governança e financiamento para produzir impacto sustentável
Políticas eficazes para a situação de rua dependem de coordenação intersetorial clara, financiamento estável e arranjos de governança que permitam operar em escala e se adaptar ao longo do tempo. O sucesso da SMADS em São Paulo e da SDIS em Bogotá reflete não apenas tecnologia ou capacidade de prestação de serviços, mas também equipes fortes e comprometidas, com mandatos públicos claros; equipes que conectam pessoas não apenas a serviços, mas a oportunidades reais .
A situação de rua é uma forma de exclusão que ocorre quando família, comunidade e instituições falham em oferecer apoio. No entanto, ela não é inevitável. Com sistemas de proteção social fortes e bem coordenados, as cidades podem preservar a dignidade, reconstruir o capital humano e abrir caminhos para moradia estável, educação e trabalho produtivo.
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