Em 2015, o sistema de ensino médio do Brasil apresentava falhas em todos os aspectos. A jornada escolar durava apenas quatro horas e, para muitos jovens, a sala de aula parecia totalmente desconectada de seu futuro. Aos 19 anos, apenas 55% dos alunos haviam se formado, quase três em cada dez estavam com dois ou mais anos de atraso em relação à série esperada. Somente 21% alcançavam a proficiência mínima em português, e apenas 3% em matemática. Esse foi o ponto de partida para uma das reformas educacionais mais abrangentes da região.
Foi nesse cenário que o Brasil deu início a uma das mais ambiciosas reformas do ensino médio da história da América Latina. O que se seguiu foi um processo de 10 anos, moldado por mudanças políticas, uma pandemia, oposição pública e correções de rumo — e, apesar de tudo, por progressos mensuráveis. A experiência brasileira oferece uma visão do que é necessário para reformar um sistema de ensino médio em grande escala.
Os desafios do processo
Em sua essência, a reforma enfrentou um problema aparentemente simples: os alunos estavam abandonando a escola porque ela não parecia mais relevante para eles. O novo modelo introduziu itinerários formativos flexíveis, ampliou o tempo de instrução e promoveu a educação em tempo integral, oferecendo aos alunos mais escolha, mais estrutura e um senso mais claro de para onde sua educação os estava levando.
A reforma avançou em condições desafiadoras. Oito ministros da educação passaram pelo cargo entre 2016 e 2025. A COVID-19 forçou o fechamento de escolas por meses em todo o país. E, no entanto, em meio a tudo isso, algo tangível estava sendo construído: os alunos permaneciam na escola por mais tempo e progrediam de forma mais consistente.
Entre 2015 e 2023, as taxas de aprovação nas escolas estaduais subiram de aproximadamente 80% para 90%. A repetência foi reduzida pela metade. A parcela de jovens de 19 anos que concluíram o ensino médio aumentou acentuadamente, de 55% para 71%. Já a distorção idade-série (quando o aluno tem uma idade superior à recomendada para a série que está cursando) caiu de 30% para 21%.
Essas estatísticas não são abstratas. Eles representam adolescentes que continuaram estudando em vez de abandonar a escola, e famílias que não precisaram ver seus filhos desistindo do futuro.
Mais tempo na escola
De todos os componentes da reforma, um avançou mais rápido — e mais longe — do que qualquer outro: o tempo. Em 2015, a maioria dos estudantes do ensino médio no Brasil passava apenas quatro horas por dia na sala de aula. Em 2023, 62% das escolas estaduais haviam estendido a jornada de instrução para pelo menos cinco horas, um aumento em relação aos 27% de oito anos antes. As matrículas em escolas de tempo integral — definidas como sete ou mais horas de instrução diária — quase triplicaram, passando de cerca de 5% para 17%.
Para professores e diretores, a mudança foi palpável. A jornada escolar mais longa criou espaço para planejamento de aulas, artes, esportes, reforço escolar, refeições compartilhadas e o tipo de relacionamento que mantém os jovens engajados. Pesquisas em toda a América Latina constatam que a educação em tempo integral reduz o abandono escolar e melhora os resultados de aprendizagem, especialmente para alunos de origens desfavorecidas.
Essa expansão foi impulsionada por financiamento federal direcionado e reforçada por uma operação de US$ 250 milhões do Banco Mundial, com o objetivo de priorizar escolas que atendessem os alunos mais vulneráveis, ajudando os estados a gerenciar o custo real de uma jornada escolar mais longa O aumento da carga horária revelou-se o caminho mais viável para tornar a reforma possível — e também o mais visível para as famílias e comunidades.
Transformação pedagógica
A aprendizagem melhorou, principalmente antes da pandemia, embora não no ritmo que os formuladores de políticas esperavam. Entre 2015 e 2019, a parcela de alunos que atingiram a proficiência mínima em português subiu de 21% para 31%. Em matemática, a proficiência aumentou de 3% para 5%. Ambos os indicadores diminuíram modestamente após a COVID-19 — para 29% em português e aproximadamente 4% em matemática até 2023 —, mas permaneceram acima de seus pontos de partida.
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) geral do Brasil subiu de 3,5 para 4,1, mas ainda ficou aquém da meta nacional de 4,9.
Por que a aprendizagem se mostrou tão mais difícil de mudar do que a matrícula ou a frequência? A resposta se repete em outros sistemas educacionais do mundo: mudar o que acontece dentro das salas de aula é muito mais complexo do que ampliar os horários escolares. Mudanças estruturais até podem ser estabelecidas por decretos e leis, mas a transformação pedagógica precisa ser construída no dia a dia.
Reforma curricular: coerente no projeto, difícil na prática
O elemento mais contestado da reforma foi a reformulação curricular. Ancorado na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o novo modelo reduziu o número de disciplinas obrigatórias e introduziu itinerários formativos flexíveis — acadêmicos e técnicos — com a intenção de fazer a escola parecer mais propositiva para alunos com diferentes ambições e trajetórias.
O projeto era moderno e alinhado às melhores práticas internacionais. A implementação, no entanto, levou os sistemas estaduais ao limite. Frequentemente, os professores não tinham formação adequada. As escolas lutavam para oferecer opções significativas de itinerários. E as avaliações nacionais — Saeb e Enem — permaneceram desalinhadas com o novo currículo, diminuindo o incentivo para que os professores mudassem a forma de ensinar.
Uma pesquisa nacional da UNESCO realizada em 2023, durante a implementação da reforma, capturou a frustração: a maioria dos gestores escolares relatou sentir-se despreparada, 74% dos professores duvidavam que a reforma estivesse trazendo benefícios reais e os alunos notaram pouca mudança na experiência escolar diária. Existia uma lacuna profunda entre o que a reforma prometia no papel e o que professores e alunos vivenciaram na prática.
Reconstruindo a confiança
Em 2023, o governo federal fez uma pausa para avaliar a situação. Lançou uma consulta pública de amplo alcance — envolvendo estudantes, professores, pais e gestores de todo o país, tanto online quanto via WhatsApp — que deixou algo claro: o equilíbrio entre flexibilidade e estrutura havia sido mal calibrado.
A resposta foi uma nova lei que recalibrou a reforma, em vez de revertê-la. O currículo comum obrigatório foi ampliado para 2.400 horas; os itinerários flexíveis foram reduzidos para 600 horas; todos os componentes da BNCC foram restabelecidos; e as regras que regem o desenho dos itinerários foram reforçadas. Isso não foi um recuo, mas um ato de aprendizado institucional; um sinal de que a reforma era capaz de evoluir em resposta às evidências e às pessoas. Ao longo de uma década, o Brasil demonstrou que a legitimidade da reforma educacional não é algo que se conquista uma vez e se mantém para sempre. Ela precisa ser constantemente renovada.
O que a história do Brasil ensina
Primeiro, a importância de estruturar as reformas pensando na complexidade. Para prosperar, a reforma curricular exige não apenas um documento orientador, mas também formação de professores, materiais didáticos, avaliações alinhadas e tempo. Negligenciar qualquer um desses elementos retardará o progresso em todos os outros.
Segundo, a necessidade de mensurar o que importa. Se os sistemas de avaliação continuarem ultrapassados, a mudança não chegará à sala de aula. Os exames e avaliações precisam evoluir ao lado das novas regras de ensino.
Terceiro, a resiliência precisa ser construída por meio do diálogo. As consultas públicas e os ajustes legislativos que marcaram a reforma do Brasil não foram sinais de fraqueza. Foram a razão pela qual a reforma sobreviveu e continua a avançar.
Dez anos depois, a experiência do Brasil deixa uma lição clara. A reforma educacional não ocorre apenas com mudanças estruturais ou mais horas em sala de aula. O sucesso real acontece quando os alunos sentem que vale a pena estudar, os professores se sentem apoiados e o próprio sistema tem a humildade de aprender e se adaptar pelo caminho.
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