Imagine aumentar a atividade económica de Cabo Verde em até 12,2% sem construir um único hotel novo nem atrair investimento estrangeiro adicional. Isto não é fantasia — é o potencial económico de integrar plenamente as mulheres na força de trabalho do país, tal como descrito na Atualização Económica de 2025.
O Grupo Banco Mundial tornou a criação de emprego o objetivo explícito de todos os projetos que apoia, reconhecendo que um bom emprego continua a ser o caminho mais seguro para sair da pobreza — proporcionando rendimento, dignidade e propósito, ao mesmo tempo em que capacita as mulheres e engaja os jovens. Para Cabo Verde, concretizar essa visão significa enfrentar uma persistente e onerosa desigualdade de género no mercado de trabalho, que trava não só as mulheres, mas toda a economia.
Uma Lacuna de Emprego, Não de Talento
Nas últimas duas décadas, Cabo Verde fez progressos notáveis na educação, saúde e participação política, como mostra o recente relatório Elas são Mulheres no Plural: Género, Desigualdade e Pobreza em Cabo Verde — áreas em que as mulheres frequentemente igualam ou superam os homens. No entanto, subsiste um desafio persistente: alcançar a igualdade no mercado de trabalho (Figura 1).
Figura 1. As mulheres estão menos representadas no mercado de trabalho do que os homens
Participação no mercado de trabalho, por género e localização, para indivíduos com idades entre 24 e 59 anos
Os dados são claros. A nível nacional, 61% dos homens trabalham a tempo inteiro, em comparação com 46% das mulheres. Enquanto 31% das mulheres estão economicamente inativas, apenas 18% dos homens o estão. Nas zonas rurais, a diferença é ainda mais acentuada: 52% das mulheres não participam no mercado de trabalho, face a 28% dos homens.
Quando as Mulheres Trabalham, Elas Ganham Menos
O problema não termina com a participação. As mulheres que entram no mercado de trabalho ganham 13% menos por hora do que os homens, e uma maior proporção declara estar disponível para trabalhar mais horas do que aquelas que atualmente trabalha (15% contra 11% entre os homens). O facto de níveis de escolaridade não compensarem totalmente esta diferença salarial é revelador: investir na educação das mulheres, ainda que essencial, não é suficiente para eliminar as desigualdades económicas.
A diferença é impulsionada por vários fatores interligados. A segregação ocupacional canaliza os homens para setores mais bem pagos, como a construção e as áreas STEM, enquanto as mulheres estão sobre-representadas em ocupações de serviços menos remuneradas. As mulheres concentram-se mais em ocupações de menor qualificação e remuneração, enquanto os homens predominam em empregos de qualificação média — apesar de as mulheres cabo-verdianas serem, em média, mais escolarizadas do que os homens, com uma maior proporção (entre os 24 e os 59 anos) a ter frequentado o ensino superior.
As mulheres também tendem a acumular menos anos de experiência profissional — possivelmente devido a responsabilidades de cuidado que levam a interrupções na carreira, criando um ciclo em que menos experiência conduz a salários mais baixos, o que, por sua vez, torna economicamente racional afastar-se do trabalho quando surgem necessidades familiares.
Uma parte significativa da diferença permanece inexplicada mesmo após considerar estes fatores, apontando para uma potencial discriminação por parte dos empregadores, agravada pela ausência de legislação eficaz de “salário igual para trabalho igual”.
O Imposto Invisível Sobre o Trabalho das Mulheres
Talvez o fator mais poderoso — e menos visível — desta lacuna de emprego seja o trabalho de cuidados não remunerado. Em Cabo Verde, as mulheres passam quase três vezes mais horas do que os homens a cuidar de outras pessoas e o dobro do tempo em tarefas domésticas. Esta divisão desigual começa cedo: até raparigas entre os 5 e os 14 anos dedicam cerca de 40% mais tempo às tarefas domésticas do que os rapazes. Na idade adulta, este fardo invisível funciona como um imposto oculto aplicado exclusivamente às mulheres, limitando o tempo, a energia e a flexibilidade que podem dedicar ao trabalho remunerado. As consequências são diretas: 36% das mulheres economicamente inativas apontam as responsabilidades familiares como principal razão para não trabalharem, em comparação com apenas 6% dos homens. Para muitas, especialmente nas zonas rurais, a ausência de cuidados infantis acessíveis não é um incómodo — é uma barreira decisiva que as exclui completamente do mercado de trabalho.
Porque Isto Deve Importar a Todos
O custo da inação recai não apenas sobre as mulheres, mas também sobre as famílias, as comunidades e a economia nacional. Cerca de 61% dos agregados familiares pobres em Cabo Verde eram chefiados por mulheres em 2015, sublinhando a ligação direta entre a inclusão económica das mulheres e o bem-estar das famílias. As crianças nestes agregados são desproporcionalmente afetadas, e as consequências acumulam-se ao longo das gerações.
A nível macroeconómico, uma economia que subaproveita sistematicamente metade da sua força de trabalho é uma economia estruturalmente aquém do seu potencial. À medida que Cabo Verde procura diversificar-se e reforçar a resiliência face a choques externos — desde eventos climáticos a quedas no turismo — ampliar o papel económico das mulheres não é apenas uma questão de equidade; é uma necessidade estratégica.
Quatro Alavancas para a Mudança
Quatro intervenções, em conjunto, poderiam alterar significativamente este panorama.
Primeiro, investir em infraestruturas de cuidados — expandindo serviços de educação e cuidados infantis de qualidade e a preços acessíveis, particularmente em áreas de elevado emprego como Santiago, São Vicente, Sal e Boa Vista — reduziria diretamente o peso do trabalho não remunerado e permitiria às mulheres participar mais plenamente no trabalho remunerado.
Segundo, o desenvolvimento direcionado de habilidades, através de programas de formação profissional em setores não tradicionais e mais bem remunerados, ajudaria a reduzir a segregação ocupacional e a abrir caminhos para empregos com melhores salários.
Terceiro, a adoção de legislação específica sobre igualdade salarial fecharia a lacuna legal que atualmente permite a discriminação salarial.
Quarto, campanhas públicas sustentadas para alterar normas sociais — e envolver ativamente os homens como parceiros nas responsabilidades domésticas — tratariam da estrutura cultural mais profunda que sustenta muitas destas desigualdades.
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