Da fazenda à mesa, o poder do espírito coletivo nos campos brasileiros

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Nosso grupo visita a fábrica de processamento de caprinos em Jussara, Bahia. Foto: Fatima Amazonas/Banco Mundial.
"Há vinte anos, eu e meus amigos tivemos que tomar uma decisão difícil: ou fazíamos algo para romper o ciclo da agricultura de subsistência, ou teríamos de migrar para a cidade, como tantos antes de nós." É assim que o chefe da cooperativa de caprinos do município de Jussara, na Bahia, descreve o começo desse empreendimento coletivo.

Estamos na pequena fábrica de processamento de carne, que é o “sistema nervoso” da cooperativa e candidata a receber recursos do projeto Bahia Produtiva. Vim aqui para ver como o conceito de inclusão produtiva pode funcionar no Brasil rural.

A ideia é simples e depende de dois elementos-chave: encontrar uma cooperativa de agricultores com escala suficiente para deixar a produção de subsistência e conectá-la a um atacadista privado ou empresa de agroprocessamento para lhe oferecer acesso a mercados.

Obviamente, apoio técnico e financeiro também são importantes. Essas medidas permitem à cooperativa expandir e atender aos padrões de qualidade do mercado e proporcionam investimentos complementares de infraestrutura. Como resultado, os rendimentos dos agricultores associados crescem e cria-se um exemplo para os demais.

A realidade na Bahia rural mostra tanto a promessa quanto o desafio de colocar essa ideia em prática. O potencial está no entusiasmo dos membros da cooperativa e no forte tecido social criado por anos de investimento no movimento cooperativo.

Aliança rara

Esses agricultores estão ansiosos para aprender, têm bons conhecimentos em criação de animais e se comprometeram com um objetivo comum. A fábrica de processamento de carne está em excelentes condições. Não há nenhuma evidência de oportunismo ou uso indevido da propriedade comum: o espírito coletivo está vivo.

E a cooperativa conseguiu um ingrediente-chave para o sucesso: encontrou um parceiro privado, uma empresa de processamento de carne em uma cidade maior, que concordou em adquirir a produção da cooperativa e oferecê-la para o mercado. O parceiro privado introduziu novos requisitos de qualidade e a cooperativa está agora em busca de financiamento para expandir sua capacidade.

O desafio é que esse tipo de aliança produtiva continua a ser muito raro na Bahia e em outras partes do Nordeste rural. Tradicionalmente, o Estado provê tudo. Ele muitas vezes apoia a fundação das cooperativas, concede os primeiros equipamentos, oferece financiamento subsidiado para os produtores e compra seus produtos por meio de programas estaduais/federais, por preços muitas vezes acima dos níveis de mercado.

Sem financiamento

Financiamento de mercado é algo que quase não existe para a agricultura familiar, e os programas estatais de compras acabam abafando os incentivos para a melhoria da qualidade. Ainda hoje, muitas oportunidades de mercado são primeiramente identificadas e lançadas por iniciativa do Estado, muitas vezes aproveitando o excelente conhecimento disponível na BahiaTer, a agência estadual de assistência técnica e extensão rural, bem como na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

No entanto, esse Estado onipresente pode em parte contribuir para a escassez de iniciativas privadas. Essa observação é confirmada por uma visita ao município de Andaraí, na Chapada Diamantina, cerca de 200 km ao sul. Visitamos Andaraí para inspecionar vias de acesso rurais, que são fundamentais para a estratégia de inclusão produtiva, pois sem acesso confiável ao transporte, qualquer esperança de se conectar a mercados seria frustrada.
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Em Andaraí, as escolas de tempo integral oferecem aulas de música. Foto: Marta Medeiros/CAR Bahia.

O prefeito, Wilson Cardoso, mostra-nos a cidade. Seu maior orgulho é uma série de escolas de tempo integral, construídas inteiramente com financiamento próprio do município, com jardins adjacentes que fornecem ingredientes frescos para a merenda escolar, salas de informática totalmente equipadas e bibliotecas, além de aulas de música e capoeira.

A paixão do prefeito pela educação se estende à escola técnica de agricultura, que oferece currículo integrado de formação dentro e fora de campo para os produtores rurais locais. “Quando assumi o cargo, estávamos gastando R$ 18.000 por mês (cerca de US$ 5.000) nas contas de telefone; agora, estamos em R$ 2.000 (em torno de US$ 560)”, ele conta quando perguntado sobre como conseguiu financiar as impressionantes melhorias na infraestrutura social em seu município.

Para reduzir ainda mais os custos, ele pediu aos pais dos futuros alunos para encaixar algumas horas de trabalho voluntário em suas agendas. Como resultado, eles se orgulham de contribuir para as escolas. O vandalismo é inexistente: mais uma vez, é o espírito coletivo sob a liderança de um governo onipresente.

O exemplo do prefeito revela outro desafio do modelo de desenvolvimento rural centrado no Estado brasileiro: ele é extremamente dependente de uma liderança forte. Na falta dela, os cidadãos recebem serviços medíocres, enquanto os governos locais mal conseguem pagar suas contas – que dirá poupar para fazer investimentos necessários.

Isso me leva ao desafio final: a autonomia financeira limitada de muitos governos locais. Poucos impostos são retidos localmente, e dos que são – tributos sobre a propriedade, por exemplo - muito pouco é efetivamente recolhido.

Dessa forma, as despesas de manutenção, mesmo as mais básicas, como para as vias de acesso rurais, são financiadas pelo governo estadual. Com limitadas receitas próprias e poucos benefícios trazidos pela promoção do setor privado local, a atenção dos políticos municipais naturalmente se volta às autoridades dos governos estadual e federal.

Ainda assim, volto a Brasília com uma sensação de otimismo sobre o que pode ser alcançado mesmo em circunstâncias adversas, com uma combinação de iniciativa privada, espírito coletivo e uma forte liderança política local.

Autores

Martin Raiser

Vice President for the South Asia Region, World Bank Group

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