Nossas decisões diárias podem ajudar a resolver ou aprofundar os complexos desafios do Brasil. Como?

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Runners and bikers train at Ibirapuera Park in Sao Paulo, Brazil
Corredores e ciclistas treinam no Parque Ibirapuera em São Paulo, Brasil. Foto: Mariana Kaipper Ceratti / Banco Mundial.

A virada do ano e uma nova década estão chegando e você já deve ter se convencido que desta vez irá se exercitar e comer de forma saudável para se livrar desses quilos extras. Desta vez não há desculpas, você diz a si mesmo, porque 2020 é o momento perfeito para a mudança.

Se você se identifica com essa resolução de ano novo porque não é a primeira vez que promete mudar seu estilo de vida, não se preocupe, você é perfeitamente humano. Por mais tola que possa parecer, essa história nos mostra que frequentemente não nos comportamos como planejamos ou como devemos nos comportar. Somos seres sociais e hedonistas. Procrastinamos e preferimos a gratificação instantânea. Não respondemos bem quando temos muitas opções, somos ruins ao fazer previsões, somos excessivamente confiantes e otimistas e não cumprimos nossas promessas.

É importante entender isso, pois nossas decisões diárias podem, em última análise, contribuir para a solução ou a piora de desafios globais complexos, como saúde pública, segurança viária, inadimplência fiscal e, finalmente, riqueza e bem-estar. A ciência comportamental estuda a razão pela qual as pessoas fazem as escolhas que fazem e como os comportamentos humanos podem mudar, de forma inovadora, os desafios do desenvolvimento e maximizar o bem-estar das pessoas.

Cada vez mais países vêm usando as ciências comportamentais para moldar políticas públicas desde a criação do Behavioural Insights Team (BIT), em 2010, com o objetivo de melhorar as políticas e serviços do governo no Reino Unido. Dez desses países são apresentados neste relatório preparado pela Unidade Mente, Comportamento e Desenvolvimento do Banco Mundial (eMBeD). Ainda que não sejam citados no estudo, muitos outros países também estão incorporando insights da ciência comportamental nas políticas públicas. O Brasil é um exemplo. Por isso, a equipe do eMBeD recentemente visitou Brasília, Recife e Rio de Janeiro para explorar a extensão da onda das ciências comportamentais no país.

​eMBeD team
​ A equipe do eMBeD visitou Brasília, Recife e Rio de Janeiro recentemente.

Nos reunimos com diversas organizações que trabalham, em diferentes estágios, com ciências comportamentais e ficamos impressionados com o crescente interesse pela área e satisfeitos de ver o aumento do uso de insights comportamentais na formulação das políticas públicas no Brasil.

Abaixo estão algumas iniciativas de destaque no Brasil:

  • Desde 2017, a Escola Nacional de Administração Pública, ENAP, e seu laboratório de inovação, Gnova, capacitam funcionários públicos, organizam eventos e promovem iniciativas relacionadas às ciências comportamentais para políticas públicas. O GNova desenvolveu seu próprio framework (SimplesMente) - que destaca os mais significativos elementos identificados nas ciências comportamentais aplicadas - para refinar o diagnóstico dos desafios das políticas públicas, avaliar os serviços e programas, apresentar soluções inovadoras, propor novas intervenções e ara aprimorar as existentes.
  • As duas maiores cidades do Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo, foram pioneiras na criação de unidades de ciência comportamental. O NudgeRio usa insights comportamentais para informar políticas públicas por meio de experimentação na cobrança de impostos sobre a propriedade desde 2014 e, mais recentemente, para incentivar os pais a estimular seus filhos a participar de um exame nacional, os pedestres para usar a faixa de pedestres e os alunos para efetuar matrículas pelo sistema de inscrição online.
  • Desde 2017, São Paulo tem usado insights comportamentais, por meio do (011).lab, para reduzir o atraso no pagamento de impostos, combater a proliferação do mosquito da dengue, aumentar a cobertura de vacinação contra a febre amarela e reduzir o absenteísmo em um hospital municipal. Embora tanto o NudgeRio quanto o (011).lab ainda tenham poucos funcionários, estão ávidos por se aprofundar no trabalho comportamental.
  • Em escala nacional, o Ministério da Cidadania integrou insights comportamentais ao desenho de seu programa Futuro nas Mãos, que oferece educação financeira para mais de 200.000 mulheres beneficiárias do programa Bolsa Família, com o objetivo de ajudá-las a gerenciar melhor suas finanças domésticas.
  • Recentemente, o quarto aniversário do Guia de Economia Comportamental e Experimental confirmou a crescente importância do campo no contexto do país. A publicação apresenta capítulos, textos e entrevistas com os principais autores mundiais sobre o assunto, incluindo alguns dos pesquisadores pioneiros no Brasil, como a Flávia Ávila, co-organizadora da publicação.
  • O Kayma Lab, com sede em Israel, está se instalando no Brasil para ajudar o governo federal na elaboração de políticas baseadas em evidências. O Kayma foi fundado em parceria com Dan Ariely, professor de psicologia e economia comportamental da Duke University, produtor do documentário (Dis) Honesty: The Truth about Lies, e autor de três best-sellers listados pelo New York Times.
  • O Centro de Bem-Estar e Desenvolvimento Infantil da Universidade de Zurique está realizando um estudo randomizado controlado para avaliar o efeito de intervenções relacionadas à mudança de mentalidade nas habilidades intelectuais de adolescentes no Rio de Janeiro.

A equipe do eMBeD também tem papel relevante nesse contexto ao inserir um viés comportamental na resolução de problemas relacionados ao setor de água e saneamento brasileiro. Com financiamento do Fundo de Prosperidade do Reino Unido (UK Prosperity Fund), buscamos entender o comportamento do consumidor no que tange a inadimplência nos pagamentos de contas e as ligações ilegais de água na região metropolitana de Recife. Uma fase de diagnóstico identificou os fatores e barreiras comportamentais que servirão de base para o design, teste e implementação de intervenções comportamentais para reduzir a perda de água na região.

The eMBeD team is investigating how behavioral interventions can help reduce water loss in metropolitan Recife, Brazil.
A equipe do eMBeD está avaliando como intervenções comportamentais podem ajudar a reduzir a perda de água na região metropolitana de Recife, Brasil. Foto: Mariana Kaipper Ceratti / Banco Mundial.

Juntamente com outras organizações de desenvolvimento, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento e agências das Nações Unidas, o eMBeD compartilha a responsabilidade e os desafios de advogar pelo uso de ciências comportamentais adaptadas ao contexto local.

Esperamos que o Brasil continue a usar insights comportamentais e consiga converter desafios em oportunidades, além de proporcionar intervenções bem-sucedidas que ajudarão as pessoas a tomar decisões melhores – desde a escolha de estilos de vida saudáveis à criação dos filhos – e melhorar o bem-estar social. O céu é o limite para o Brasil, e a agenda das ciências comportamentais já segue com promessa de grande crescimento.

 Você conhece outras intervenções comportamentais em políticas públicas no Brasil? Compartilhe conosco na seção de comentários abaixo.

 

Authors

Zeina Afif

Cientista social sênior, Prática Global de Pobreza e Equidade do Banco Mundial

Juliana Brescianini

Ponto focal da Unidade de Mente, Comportamento e Desenvolvimento do Banco Mundial (eMBeD) no Brasil

Jimena Llopis

Cientista Comportamental da Unidade de Mente, Comportamento e Desenvolvimento do Banco Mundial (eMBeD)

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