No Rio de Janeiro, reflorestamento muda a vida dos moradores das favelas

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Não é fácil chegar ao Morro da Formiga, uma favela que se equilibra – como um ninho de pássaro – em uma montanha na Zona Norte do Rio de Janeiro. Mas, uma vez que se chegue lá, a visão das encostas recobertas de verde é impressionante. Nem sempre foi assim. Há 16 anos, a erosão e os deslizamentos de terra ameaçavam os moradores.

O Morro da Formiga é um dos 144 pontos contemplados pelo programa de reflorestamento da cidade do Rio. Há uma semana, visitei o local com uma equipe da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e uma jornalista da Agência France Presse (AFP). 

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Morro da Formiga. Foto: Franka Braun

Desde 1986, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMAC) vem implementando um programa de reflorestamento comunitário que já plantou mais de 6 milhões de sementes em 2,2 mil hectares de terra dentro da cidade. 

Por muito tempo, o Rio sofreu com o desmatamento de suas encostas devido ao crescimento desordenado da cidade. Isso causou não só a erosão do solo, mas também poluição (com sedimentos) das nascentes, enchentes e deslizamentos de terra. Pior, deu origem a uma série de poças carregadas de mosquitos causadores de doenças.

Hoje, as áreas degradadas em torno da Formiga e de mais 57 comunidades atendidas pelo projeto vêm sendo reflorestadas com um misto de espécies da Mata Atlântica. Agora, essas árvores recebem de volta pássaros e outros pequenos animais. Além disso, melhoram a qualidade do ar, do solo e da água da comunidade.

Marcelo Hudson de Souza, responsável pela área de recuperação ambiental na SMAC, nos guia pela montanha íngreme e fala sobre a importância de envolver a comunidade nos esforços de reflorestamento. Afinal, cabe a ela cuidar do local quando o trabalho estiver pronto.
 

Image  "Eu e meu filho, de 19 anos, trabalhamos juntos e estamos muito felizes de ajudar o Formiga a ser um lugar melhor".
  Carlos Eduardo Gonçalves - Voluntário


À nossa frente, estão voluntários que limpam o terreno e preparam-no para a plantação de novas sementes.

“Eu e meu filho, de 19 anos, trabalhamos juntos e estamos muito felizes de ajudar o Formiga a ser um lugar melhor”, diz Carlos Eduardo Gonçalves, 39 anos. O supervisor dele, Dejair dos Santos, 66 anos, também trouxe um dos quatro filhos para trabalhar com ele, o que garante a continuidade dos esforços.

Os voluntários também vêm fazendo a contagem das árvores do local, parte importante do inventário de todas as áreas florestadas da capital fluminense. Esse trabalho integra o Inventário de Emissões de Gases Causadores de Efeito Estufa, que ajuda a identificar oportunidades de redução dessas emissões na cidade.  O objetivo é diminuir as emissões em 20% até 2020.

O programa de reflorestamento comunitário do Rio deu tão certo que, há dois anos, a SMAC começou um novo programa chamado Rio Capital Verde. A nova iniciativa planta árvores em áreas remotas do Rio, e o projeto ganha créditos de carbono computados sob o Programa de Desenvolvimento de Baixo Carbono do Rio de Janeiro

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Voluntários preparam o terreno para o plantio de novas sementes. Foto: Franka Braun

Esse programa, desenvolvido em parceria com o Banco Mundial, é um modelo que permite planejar, implementar, monitorar e contabilizar os investimentos de baixo carbono e as ações de mitigação das mudanças climáticas em todos os setores. A equipe de florestamento urbano identificou mais 11 mil hectares de áreas degradadas – também com potencial para gerar créditos de carbono -- que podem ser reflorestadas dentro dos limites urbanos do Rio.  

O Rio Capital Verde está buscando registro do Padrão de Verificação de Carbono (VCS, na sigla em inglês) como primeiro projeto integrado de reflorestamento urbano do mundo.

Quando se visita o Morro do Formiga, fica claro que as árvores urbanas são importantes não só pela beleza, mas também pelos serviços que elas prestam ao ecossistema. As florestas diminuem a formação de ilhas urbanas de calor (nome dado às áreas que ficam mais quentes do que a zona rural devido à atividade humana). Isso, por sua vez, diminui o consumo de energia usada para o resfriamento dos ambientes em geral.

E a lista de benefícios não para por aí: também se reduz a poluição, melhora-se a qualidade da água, desperdiçam-se menos recursos hídricos e geram-se empregos.

A importância desses serviços e como é possível valorizá-los foram temas discutidos na mesma semana, durante o Fórum Latino-americano de Baixo Carbono. Moderei um workshop sobre desenvolvimento urbano de baixo carbono, no qual discutimos como o carbono sequestrado pelas árvores é apenas uma das vantagens trazidas por elas. Também se falou de como medir esses benefícios.

David Nowak, do projeto de reflorestamento da USDA, apresentou uma mensuração dos serviços do ecossistema proporcionados pelas árvores e avaliou: “Os prefeitos, as secretarias municipais e os cidadãos podem usar esses dados para elaborar planos de desenvolvimento de longo prazo, de modo a sustentar uma população de árvores saudáveis e serviços do ecossistema para as novas gerações”. 

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Morro da Formiga em 1997 (acima) e em 2010 (embaixo) Foto: SMAC

Os dados vêm de uma análise feita com o aplicativo iTree Eco, desenvolvido por Nowak e equipe. Ele explicou que as 43.773.000 árvores contadas para a experiência limpam o equivalente a 6.400 toneladas métricas/ano de poluição do ar. Isso, por sua vez, economiza US$ 46,2 milhões anuais em custos de saúde. Quando perguntado como esse valor foi obtido, Nowak explicou que o valor da melhoria da qualidade do ar é medido pela quantidade de consultas médicas e internações (por doenças respiratórias) anuais.

Em uma reunião pós-evento, o assessor especial da prefeitura do Rio, Rodrigo Rosa, mostrou outro aspecto importante na formação de dados confiáveis: “Precisamos desses números para que as pessoas nas comunidades se orgulhem de ajudar o Rio a ter um desenvolvimento de baixo carbono. Os projetos de reflorestamento urbano contribuem para um desenvolvimento forte e sustentável da cidade”. 


Autores

Franka Braun

Senior Natural Resource Management Specialist

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