Reconstruir uma ponte sobre as águas agitadas de Moçambique

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O aeroporto de Quelimane na província da Zambézia em Moçambique recorda-nos uma outra era. A negligência benigna de décadas é fácil de notar nas suas paredes com pintura descascada e algo delapidadas. Parece que pouco mudou por aqui ao longo dos anos.

Estávamos lá numa missão de supervisão, ou seja, de apoio à implementação com vista a analisar o progresso, prestar assistência e aferir a adesão aos compromissos acordados para o projecto, bem como às regras e regulamentos para a sua implementação. A aparente normalidade no distrito esconde a profundidade da dor e sofrimento. Um ano atrás, morreram mais de 1 300 pessoas, muitas desapareceram e milhões foram afectados pelas calamidades desencadeadas pelo Ciclone Idai.

Avistamo-nos com a Enfermeira Salomé Lolinda de 27 anos de idade, que recordou com tristeza o dia em que o ciclone arrasou a sua aldeia de Derre, na província da Zambézia. Ela estava a acompanhar um doente grave à capital da província numa ambulância quando ficaram presos no meio da ponte devido as correntes fortes das águas. Ficaram lá retidos na ambulância durante dois dias, antes de serem salvos.

Graças aos troncos de árvores arrastados da margem, que serviram para preencher brechas da ponte, a ambulância não foi arrastada para a água, salvando-lhes as vidas. A fúria da água fez colapsar parcialmente a ponte sobre o rio Lua-lua, que liga os lados norte e sul de Derre. Com a ponte danificada, ficaram isoladas muitas das 6 000 pessoas da comunidade de Derre, cuja importância aumentou desde que se tornou sede de distrito há algum tempo atrás.

Durante cerca de três meses, agricultores, comerciantes, estudantes, doentes e viajantes, que quisessem ir de um lado da aldeia para o outro, tinham de escolher entre duas opções pouco agradáveis. Uma era arriscar a vida, usando canoas e balsas improvisadas para atravessarem correntes perigosas. A outra era caminhar durante seis horas para contornar o rio.  

Hoje, com o apoio do Projecto Integrado de Desenvolvimento de Estradas Rurais, carros, motociclos, bicicletas e peões atravessam o rio como o faziam antes do Idai ter passado, seguido de um outro ciclone, Kenneth, apenas seis semanas mais tarde. Quem atravessa a ponte pode, mais uma vez, ver mulheres e raparigas a lavarem roupa nas margens do rio.

A ponte é vital para o bem-estar de Derre. A maior parte dos habitantes da aldeia, predominantemente agrícola, vive num lado e, no outro, estão serviços tão essenciais como os edifícios do governo distrital, as escolas e o centro de saúde de Derre que trata mais de 300 pessoas por dia.

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With support from the Integrated Feeder Roads Development Project, the Lua Lua River Bridge was repaired, along with dozens of other bridges and hundreds of kms of roads. Photo: Mozambique National Roads Administration
With support from the Integrated Feeder Roads Development Project, the Lua Lua River Bridge was repaired, along with dozens of other bridges and hundreds of kms of roads. Photo: Mozambique National Roads Administration

Reforçar o potencial de produção e de comercialização da comunidade

Depois da reconstrução da ponte, só leva de novo 15 minutos para ir da área agrícola e residencial para a sede distrital.

Como o diz o Administrador do Distrito de Derre, Sr. Santiago Marques, a ponte sobre o rio Lua Lua representa a tábua de salvação das comunidades rurais nos dois lados do rio. Recuperar a ponte não ajudou apenas Derre. Beneficiou também comunidades algo distantes ao permitir que os agricultores da área de Derre levem até elas os seus produtos. Nestas incluem-se a cidade de Mocuba a norte de Derre, a aldeia de Morrumbala no sul e a aldeia estratégica de Zero ao longo da Estrada Nacional Nº 1 (N1).

Para as famílias, a diferença foi imediata. O milho, que custava aos residentes 25 Meticais durante o período em que a ponte estava intransitável, custa agora10.

A recuperação da ponte praticamente demonstrou que nada funciona sem uma rede de estradas robusta. O acesso aos cuidados de saúde, à agricultura, à educação e todos os aspectos da reconstrução exigem um sistema de estradas funcional e adequado.

No curto período de seis meses, ajudámos a reconstruir centenas de quilómetros de estradas, dezenas de pontes e restabelecemos a conectividade em cerca de três mil km da rede rodoviária afectada. Para operar este milagre num país frágil e numa situação de pós-desastre, especialistas de muitas áreas do Banco trabalharam em conjunto para inovar, resolver rapidamente problemas e para ajudar Moçambique a criar as suas competências técnicas, ambientais e de protecção social e de ordem fiduciária e de aquisições.

Concluída a nossa missão de implementação, enquanto esperávamos para embarcar no voo para Maputo, recordámos a Enfermeira Salomé Lolinda que, agora, usa a ponte recém-construída para prestar cuidados médicos críticos ao público. Temos à nossa frente um longo percurso até chegarmos à normalidade em muitas partes de Moçambique. Entretanto, vamos continuar a construir pontes sobre águas agitadas.

Authors

Rakesh Tripathi

Senior Professional with the World Bank’s Transport and ICT Global Practice

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