Publicado em Africa Can End Poverty

Três desafios e três oportunidades para a segurança alimentar na África Oriental e Austral

Esta página em:
Ethiopia Ethiopia

A África Oriental e Austral – onde residem mais de 656 milhões de pessoas, muitas das quais são pobres e enfrentam diariamente desafios consideráveis no acesso a uma alimentação adequada, segura e nutritiva – têm alguns dos sistemas alimentares mais vulneráveis do mundo.  

O recém-aprovado Programa para a Resiliência dos Sistemas Alimentares na África Oriental e Austral irá ajudar a enfrentar os desafios estruturais subjacentes da insegurança alimentar e a abordar a questão da vulnerabilidade à choques imprevisíveis.

Madagáscar, onde 7,8 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar, e a Etiópia com cerca de 22,7 milhões de habitantes a sofrerem de insegurança alimentar, irão beneficiar da primeira fase do projecto. Ambos os países estão a passar por secas extremas exacerbadas pelas alterações climáticas. 

O programa responde directamente a três desafios de segurança alimentar que a região enfrenta, e explora três oportunidades para melhorar a resiliência dos sistemas alimentares com vista a alcançar comunidades mais fortes e mais saudáveis.

Três Desafios à Segurança Alimentar

  1. Choques Climáticos e os Sistemas Alimentares: A partir de 2019, condições atmosféricas extremas, conflitos e a pandemia de COVID-19 arrastaram cerca de mais 50 milhões de pessoas para uma grave insegurança alimentar na África Subsariana. Acresce que, embora fosse habitual existirem choques no sistema alimentar provocados pelo clima, de doze em doze anos em média, estes estão agora a acontecer com uma frequência de 2,5 anos. São demasiado frequentes para que os países, regiões ou explorações agrícolas possam recuperar cabalmente no intervalo dos choques, tornando fundamentais os investimentos na criação de resiliência dos sistemas alimentares para que a região possa responder aos desafios de forma mais rápida e eficaz.  
  2. Choques dos Preços a Nível Mundial: Os países da África Oriental e Austral também são afectados pelos choques, a nível mundial, produzidos nos sistemas alimentares – incluindo volatilidade nos mercados de matérias-primas, aumentos dos preços da energia e fertilizantes, disrupções no comércio e os eventos em curso na Ucrânia. Estes choques levaram a aumentos abruptos nos preços dos alimentos em toda a região e aumentaram a insegurança alimentar numa altura em que as famílias lutam para esticar os seus rendimentos.  
Inflação dos Preços dos Alimentos numa Base Anual em Países Seleccionados da África Oriental e Austral
  1. Subnutrição: Segurança alimentar não se reduz à fome ou à escassez generalizada e grave de alimentos; trata-se também de subnutrição de longo prazo que leva a fracos resultados na saúde. Em toda a África Oriental e Austral, a percentagem de pessoas subnutridas está a aumentar, de 21% em 2019 para mais de 25% em 2020, com graves consequências para a saúde e o bem-estar das pessoas na região. Madagáscar está perante uma insegurança alimentar crónica e as taxas mais altas de subnutrição em África. Quase metade das crianças com menos de cinco anos são raquíticas, e cerca de um quarto da população está subnutrida. Na Etiópia, mulheres e crianças são as mais afectadas, havendo cerca de 44% de crianças com raquitismo. Frequentemente, em situações de crise, é a diversidade alimentar que fica comprometida em primeiro lugar.
Prevalência de subnutrição na ASS por sub-região, 2015?2019 com projecções para 2030

Oportunidades de Acção

Apesar destas circunstâncias desafiadoras, o aumento da resiliência dos sistemas alimentares na região oferece oportunidades reais para não apenas resolver a insegurança alimentar e assegurar que todos tenham o suficiente para comer, mas também para criar mais empregos, promover o comércio e aumentar a resiliência.

  1. Empregos! O sector agrícola e alimentar permanece uma fonte significativa de crescimento económico e criação de emprego, representando cerca de 15% do PIB dos países da África Oriental e Austral em 2020. Cerca de 59% da população da região estava empregada na agricultura em 2019 e, em alguns países, registavam-se percentagens mais altas: 86% no Burundi, 80% na Somália, 76% no Malawi, 70% em Moçambique e 66% na Etiópia e Zimbabué. Logo, o reforço do sector agrícola tem um enorme potencial para aumentar os rendimentos e as oportunidades das pessoas na região. E quando as pessoas têm empregos estáveis, estão mais bem preparadas para lidar com os choques sem terem de recorrer ao dinheiro necessário para a alimentação.  
  2. Comércio! Prevê-se que a procura por produtos alimentares aumente consideravelmente nas próximas décadas, com o crescimento da população e a expansão das cidades. Presentemente, a indústria alimentar e de bebidas é responsável por 38% do PIB na África Oriental e Austral. Em 2050, a indústria deverá ter um aumento de 800% no valor dos alimentos, e o comércio de alimentos processados pode ter um aumento de até 90%. De referir que o aumento do comércio não se traduz apenas na expansão das oportunidades de negócio; ajuda também a estabilizar a existência e o acesso de alimentos na região. Quando um país passa por um choque climático, como por exemplo a seca actual no Corno de África ou os frequentes ciclones que atingiram Madagáscar, outros países podem incrementar as suas exportações para preencher as necessidades. 
  3. Resiliência! Há um potencial considerável para aumentar a produtividade agrícola e a resiliência climática. Na África Oriental e Austral, a produtividade agrícola poderia ter um aumento de até 2-3 vezes se se adoptassem melhores factores de produção agrícolas e tecnologias de produção, se os solos e recursos hídricos fossem utilizados com mais eficiência e se o capital natural e os ecossistemas fossem restabelecidos. As ferramentas digitais para monitorizar os riscos climáticos podem identificar o começo de choques climáticos antes de acontecerem e facilitar respostas para que se crie resiliência. Sistemas de irrigação automáticos, sensores do solo e drones podem promover a eficiência da produção.

Acção do Banco Mundial

Tendo em mente estes desafios e oportunidades, o Programa para a Resiliência dos Sistemas Alimentares na África Oriental e Austral oferece uma gama de apoios, desde a restauração da capacidade de produção agrícola, à melhoria da gestão dos recursos naturais, à obtenção de alimentos para os consumidores até à incorporação da resiliência na formulação de políticas a nível nacional e regional.

Vê outros desafios e oportunidades? Diga-nos quais são, nos comentários!


Autores

Holger Kray

Practice Manager for Agriculture and Food Security

Juntar-se à conversa

The content of this field is kept private and will not be shown publicly
Remaining characters: 1000